Temática

Inovação e Tradição - preservar e criar na formação docente

          Em sentidos múltiplos tradição e inovação, condensam um desafio presente no “que fazer” da formação de professores e nos embates da atual situação política e educacional brasileira. O que é preciso conservar, cultivar, preservar? Em que se pode ou se deve inovar, criar, inventar? Tais questões acompanham desde há muito a formação de professores. A intensidade ou urgência atual de constituir caminhos e respostas é maior hoje ou estamos reeditando desafios já vividos? Para alguns mais céticos talvez não haja muito a continuar. Ou para outros, talvez, não se consiga criar novos modos de formação. Estas questões importam para nos advertir sobre a necessidade de saber da história, que em muitos sentidos pode nos ajudar a conceber o espaço dos possíveis na construção de vias político-educacionais.

          A realização dos Congressos Nacional de Formação Docente e Estadual Paulista sobre Formação de Educadores que alcançam agora a IV e XIV edições tem buscado contribuir para a ampliação do referido espaço propondo/induzindo reflexões e apresentando um quadro dos investimentos em curso, no plano nacional e internacional. Balanços e inventários têm sido elaborados de modo a nos dar a conhecer acúmulos e rarefações quanto às propostas e estudos para o aperfeiçoamento da formação de professores. Diagnósticos do quadro de carências e iniciativas na distribuição nacional/regional das escolas, dos professores e de seus saberes, igualmente, tem se avolumado nos últimos tempos. Num cenário de tal ordem é que cabe interrogar acerca das possibilidades de inovar e preservar. Por um lado, dimensões do progresso tecnológico e de sua pervasividade na vida cotidiana atualmente exigem alterações e inovações nos padrões de formação. Por outro, sabe-se que alguns modos e regras de ação revelam-se frutíferos nos processos de formação docente, associem-se eles diretamente à transmissão de conhecimentos de disciplinas consagradas ou à críticas/problematizações férteis das relações entre cognição e performance. 

          Compareceram, dentre as temáticas organizadoras dos congressos, as preocupações conjunturais e os desafios permanentes. A própria articulação dos elos entre tempo/espaço social e formação foram objeto de atenção, o século XXI em sua chegada, a hipótese de revoluções na área da formação docente e os desafios, tensões, dilemas e perspectivas mobilizaram o interesse e atenção dos pesquisadores nos eventos. Clássicas questões como a das relações entre Estado e Universidade e das relações entre teorias e práticas, concepção e implementação de políticas igualmente se fizeram presentes em edições do congresso. Questões estruturantes do conhecimento e dos estudos educacionais tais como a das relações entre as dimensões das artes, técnicas, ciências e políticas no campo educacional e de formação para o magistério e a da avaliação em seus diversos planos e configurações também dirigiram as reflexões. 

         A proposição atual de concentrar a atenção na problemática da inovação e tradição e nas práticas de preservar e criar remete simultaneamente à necessidade de mobilizar o conjunto de consensos já obtidos no plano dos conhecimentos acumulados e sobre eles/a partir deles/com eles constituírem novos modos, práticas e padrões de ação formativa. Em muitas circunstâncias tem-se a impressão de que, no campo educacional, é visível uma certa impermeabilidade entre os estudos, pesquisas e conquistas do entendimento como se fosse difícil produzir elos de integração para fazer frutificar as tradições construídas no território das práticas e conhecimentos. Que tal impressão não corresponda à totalidade do que ocorre é bem possível. Nosso espaço de produção/ação é suficientemente amplo e mutável para que as limitações de compreensão se imponham. As dificuldades da integração e preservação dos resultados e conhecimentos já constituídos dizem muito sobre características do espaço de produção/circulação e apropriação dos estudos educacionais. Devem tais dificuldades nos incitar na busca de entendimento, via novas formas de análise potentes para a proposição de novos processos de intervenção, tal como já se sugeriu na identificação de temáticas de encontros anteriores.

          Podemos aqui alinhar um conjunto de interrogações que percorrem o quadro delineado. Quais as direções em que se pode buscar concretizar inovações? O que significa inovar no território dos estudos educacionais e, em especial, no da formação docente? Por que, para que e o que importa preservar, nesse caso? Para além do sentido fundamental do reconhecimento das funções de conservação/reprodução e transformação da escola, como propor uma educação docente fértil para se desdobrar em práticas de formação de modo a que novas gerações saibam cuidar do mundo? Saibam inovar e preservar. 

      Como escrever hoje a formação de professores inscrevendo-a no campo da produção, sem desenraizá-la num tempo de aceleradas condições de transformação social e técnica? É preciso grifar aqui o papel do Congresso enquanto porta-voz insistente de tais questões (como subjacentes às discussões concretizadas). Trata-se agora, no quadro de premências que desestabilizam a mínima harmonia desejável para intentos produtivos, de indagar ainda uma vez, acerca de nossos modos de proceder na formação docente e em seus estudos. O que se acrescenta, então, é a explicitação do caráter central das relações entre criar, inovar e preservar e dos movimentos possíveis de transição, no domínio educativo, entre tais modalidades de ação.

 

Comissão Organizadora